Agosto na infraestrutura: cinco movimentos que marcaram o setor

O mês de agosto foi marcado pela consolidação de decisões que deverão orientar os próximos investimentos em infraestrutura no Brasil. Planejamento de longo prazo, novos modelos de concessão, modernização regulatória e novas tecnologias apareceram como os principais eixos do mês.

Mais do que anúncios isolados, as notícias mostram um setor preocupado com a qualidade dos projetos, a clareza das regras e a distribuição de responsabilidades entre poder público, investidores, concessionárias e usuários.

PNL 2050 define prioridades para a logística nacional
O Governo Federal lançou o Plano Nacional de Logística 2050, que deverá orientar os investimentos em transportes pelos próximos 24 anos. O cenário proposto reúne 31 eixos prioritários: 12 rodoviários, oito ferroviários, quatro aquaviários e sete intermodais. O desafio será transformar esse planejamento em uma carteira executável, com projetos de engenharia, financiamento, licenciamento e articulação entre os diferentes níveis de governo.

TCU libera novas concessões rodoviárias
O Tribunal de Contas da União autorizou o prosseguimento de dois projetos relevantes. A Rota Agro Central compreende 887,6 quilômetros das BRs 070, 174 e 364, em Mato Grosso e Rondônia, com aproximadamente R$ 6 bilhões em investimentos projetados. O tribunal determinou ajustes nas regras de reclassificação tarifária e no modelo de pedágio eletrônico, buscando relacionar os aumentos de tarifa aos benefícios efetivamente entregues aos usuários.

Também recebeu aval do TCU a Rota 2 de Julho, nas BRs 116 e 324, na Bahia. Com R$ 14,8 bilhões em investimentos previstos, o projeto foi concebido como a primeira concessão rodoviária federal integralmente estruturada para operar com free flow, sem praças físicas de pedágio. Além do volume de obras, o modelo poderá servir como referência para a cobrança proporcional ao trecho percorrido e para a distribuição dos riscos de inadimplência.

Ferrovias ganham nova referência regulatória
A Agência Nacional de Transportes Terrestres aprovou a primeira norma das novas Condições Gerais de Transporte Ferroviário. A chamada ROF 1 organiza regras aplicáveis às concessões e autorizações ferroviárias e disciplina a autorregulação prevista na Lei das Ferrovias. A iniciativa procura reduzir a fragmentação normativa e preparar o setor para discussões mais complexas, como interoperabilidade, compartilhamento da malha e acesso por terceiros.

Saneamento avança na padronização contábil
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico aprovou uma norma de referência para a contabilidade regulatória. A medida estabelece critérios para tornar as informações econômicas e patrimoniais dos prestadores mais padronizadas e comparáveis. Na prática, deverá facilitar o acompanhamento do desempenho, os processos tarifários e o cálculo de eventuais indenizações. Os prestadores terão até 2032 para implementar os respectivos manuais.

Brasil prepara os primeiros leilões de baterias
A Agência Nacional de Energia Elétrica avançou na preparação dos primeiros leilões brasileiros para contratação de sistemas de armazenamento em baterias de grande porte. Previstos para dezembro, os certames deverão contratar disponibilidade de potência por 15 anos, com início de suprimento em 2028. O armazenamento ganha importância diante do crescimento das fontes renováveis variáveis e da necessidade de ampliar a flexibilidade do Sistema Interligado Nacional.

O próximo gargalo pode estar na capacidade de execução

Em conjunto, os movimentos de agosto mostram que o Brasil começa a estruturar uma carteira relevante de investimentos. Há planejamento de longo prazo, concessões em preparação, novas tecnologias e avanços regulatórios. Entretanto, entre a aprovação de um projeto e sua entrega existe uma variável menos presente nos anúncios: a disponibilidade de profissionais para planejar, projetar, executar, fiscalizar e operar esses ativos.

O desafio não se limita aos trabalhadores diretamente mobilizados nos canteiros. A escassez alcança engenheiros, técnicos, planejadores, supervisores, profissionais de segurança, especialistas ambientais e equipes de gestão contratual. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, o Brasil forma aproximadamente seis engenheiros por ano para cada 100 mil habitantes, enquanto países como Estados Unidos, China e Japão chegam a cerca de 35. A entidade também aponta redução do interesse dos jovens pela construção e queda nas matrículas de Engenharia Civil.

A dimensão do problema aparece igualmente no Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027. O levantamento estima que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2027. Desse total, 2,2 milhões precisarão de formação inicial para ocupar novas vagas ou substituir profissionais que deixarão o mercado, enquanto 11,8 milhões necessitarão de treinamento e atualização.

A expansão simultânea de obras rodoviárias, ferroviárias, energéticas, industriais e de saneamento tende a ampliar a disputa por uma base de profissionais que já apresenta sinais de insuficiência. Nos projetos localizados fora dos grandes centros, somam-se as dificuldades de mobilização, alojamento, contratação local e retenção de equipes. O resultado pode aparecer na forma de custos maiores, rotatividade, perda de conhecimento, atrasos e pressão sobre a segurança e a qualidade.

Tecnologias como Building Information Modeling (BIM), industrialização, mecanização e inteligência artificial podem elevar a produtividade, mas não substituem o conhecimento técnico e a experiência de campo. A resposta passa também pela formação profissional, capacitação dentro dos canteiros, contratação local, retenção de trabalhadores experientes, gestão do conhecimento e criação de ambientes de trabalho capazes de atrair uma nova geração.

O debate sobre infraestrutura, portanto, não pode terminar no volume de investimentos anunciado. Se o país pretende executar os projetos previstos para as próximas décadas, precisará planejar simultaneamente as obras e as pessoas que irão realizá-las. A infraestrutura de 2050 dependerá, em grande medida, das decisões de formação e qualificação tomadas agora.